Vivemos
num país tropical que, apesar do tal do aquecimento global, está cada vez mais
frio. A forma cada vez mais apressada, virtual e individualista como vivemos
vai distanciando as pessoas e esfriando as relações sem que percebamos. Vivemos
solitários num mundo cheio de gente. Gente tão perto. Tão longe. Neste
contexto, o abraço fica fora de contexto. Parece ter saído de moda e cedido
espaço aos acenos, aos tapinhas nas costas. Perdemos, inclusive, a paciência de
escrever abraço ao final das mensagens eletrônicas. O abraço virou abc. Que prático! Que frio!
O
abraço talvez seja uma das maneiras mais eficazes de aquecermos a vida. Abraço
da alegria pelo reencontro, da despedida, da celebração pela vitória, de
gratidão, do reconhecimento do erro, do perdão concedido, da cumplicidade, do
acolhimento, do consolo, do amor declarado. Abraço de verdade, em que os
corações se encontram e por meio do qual a vida é compartilhada.
Jesus
contou a história de um jovem rapaz que pediu ao pai (ainda vivo, é claro) sua
parte da herança pra viver a vida. Cara de pau. Com muita grana na mão, foi pra
longe. Curtiu a vida adoidado, até o dia em que o dinheiro acabou. Gastou tudo.
Dinheiro, dignidade, vida. Os amigos se foram e a realidade bateu à porta. Quebrado,
mendigo, moribundo, lembrou-se que na casa de seu pai nem os empregados
passavam necessidade. Arrependido e constrangido, decidiu voltar pra casa,
reconhecer seu erro e pedir ao pai que o aceitasse como um empregado.
A
reação do pai? Ao reconhecer o filho no caminho (pai conhece o filho de longe),
correu na direção daquele trapo de gente e se lançou a abraçá-lo e beijá-lo.
Não fez nenhuma pergunta. Nenhuma ressalva. Sequer deixou o filho falar.
Abraçou logo, de verdade, sem reservas. Que abraço! Abraço que perdoa, devolve
a dignidade, reaquece o coração, restaura a vida.
Jesus
contou esta história pra nos revelar a forma como Deus ama gente como a gente.
Gente como a gente, que dá as costas pra Ele e curte a vida ignorando a sua
existência e o seu amor. Gente como a gente, que acha que é alguma coisa até
que a vida nos mostre o quanto somos frágeis. Gente como a gente, que se tiver
coragem de olhar honestamente pra dentro de si vai reconhecer o estado de
miséria, de frieza, de distância do Pai.
Num
mundo que não mais abraça, os braços do Pai ainda estão abertos pra lhe dar o
abraço mais transformador da sua vida. Volte pro Pai, do jeito que você está,
experimente Seu acolhedor abraço e Sua calorosa companhia.
Num
mundo que não mais abraça, vamos seguir o exemplo do Pai. Vamos compartilhar
vida. Vamos aquecer a fria sociedade. Vamos abraçar as pessoas. De verdade.
Encerro
com um trecho de belo poema de Artur da Távola:
“Que
o abraço abrace.
Que
o perdão perdoe.
Que
tudo vire verbo e verbe. Verde. Como a esperança.
Pois,
do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo.”
Um
abraço!
Rodolfo
Seifert
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Texto extraído com autorização do autor: http://blogdoseifert.blogspot.com.br/
Editoração: Daniel Schulz
